sexta-feira, setembro 28, 2018

quinta-feira, agosto 02, 2018

O animal estimado

No quarto onde dorme uma gatinha perscruta silente e pensativa a molhada paisagem da cidade impregnada de orvalho , olha e resmunga através das grades da janela entreaberta . O dia desmaia num entediado miado . Entronizada naquela surrada poltrona ela, languidamente se espreguiça , um vento cortante lhe passa pela espinha fazendo-a  se arrepiar . O móvel encostado à parede , que no passado  não muito recuado era alvo como suposta pura neve, agora entrementes estava abandonado , aquecido pelo conforto que brindava as caricias daquela siamesa curiosa pelo voo do pardal riscando os céus daquela estranha urbe humana.

Wilson Roberto Nogueira
Como poderei  ser um bom pai, querer ser aprovado e aprovar meu filho , se eu , mesmo sem ser pai fui sempre um filho reprovável. Falta-me aquilo que não faltará a minha semente -ao meu filho- a presença e os cuidados , a sabedoria dos meus grâo pais meus avós , por não ter vivido e vivida  convivência não ter existido entre eles meus pais.

Hoje sinto-me ressentido comigo próprio por não ter me alimentado da amizade e do amor dos meus pais.

A culpa maior porém cabe-me, não consegui galgar o cume das expectativas, não consegui cimentar em concreto a esperança , luz que em mim meus pais tinham focado.

Roubei as esperanças que depositaram meus pais no meu banco, banco de areia, frágil, desmanchado pelo vento.

As falhas não serão a herança podre para meu fruto , fruto que germinará dando origem a frondosa árvore _meu renascimento e meu orgulho.

Wilson Roberto Nogueira
As imagens das palavras não são nada comparadas a eloquência dos  fatos concretos .
Em suas pegadas  claudicam fatos nas pedras das versões do espírito do tempo e das conveniências.
Sem folego para a crueza , muitas vezes fétida dos fatos perdem-se no vazio.

Wilson Roberto Nogueira.
A memória nada mais é do que uma lembrança enlatada .

Jô Soares.
Tudo muda tudo passa neste mundo de ilusão
Vai para o céu a fumaça fica na terra o carvão.

Até nas flores se nota a diferença da sorte
umas enfeitam a vida outras enfeitam a morte.

versos citados por Anália Kolodycz Tonon.
A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.

Max Nunes.
Basta ir ao fundo de qualquer acontecimento histórico, noutras palavras , da atividade de toda massa de homens que tomaram parte no acontecimento , para se convencer de que a vontade do herói histórico não somente não dirige as ações das massas , mas que ela mesma está sendo constantemente dirigida . 

Lev Tolstói

quarta-feira, maio 30, 2018


segunda-feira, maio 28, 2018


sexta-feira, maio 25, 2018






quinta-feira, maio 24, 2018











quarta-feira, maio 23, 2018


Pego um livro e leio nas bordas outras vidas  ,
em letras ora miúdas como mexilhão no coral ,
ora  octopode  oculto na tinta de seu corpo evaporado na fuga
e me pergunto se velhos fantasmas
transaram no silêncio dos sonhos ;
outras vozes em mares revoltos ou na calmaria,
onde barcos pensam
outros destinos em outros mundos,  portos a conhecer.
Veias  em alva pele, macia ou já amarelada, não importa ;
continentes ocultos que lançam sombras luminosas
na orla da praia das sensações .
Uma simples leitura mergulha em mares profundos,
onde em cada nível, novas leituras são possíveis.
Quando o fôlego não deserta para deixar ao sol,
nosso cadáver naufrago.

Wilson Roberto Nogueira


Tente e retente que a tinta sairá do cuore ou do cérebro ou das cicatrizes ou da sombra
penso :equilibrar-se sobre um fio no alto do circo não tendo rede embaixo e ser franco e honesto consigo mesmo e com a morte.Usar o discernimento e o bom senso sempre senão cataplaft...
pode não ter nada a ver com a gíria parece uma erupção sem barulho de algo que assisti nas sombras dos sonhos.
levantar peso, a vida já faz; lançá-lo à distancia meu rapaz é o que satisfaz.A jóia do saber viver é aproveitar os detalhes da vida , focar na claridade sempre , mesmo no escuro...
preciso de drágeas de auto-engano para convencer a sombra que sou que sou sol
só sabendo ler na sombra que sou que existe sim a possibilidade da luz.

Wilson Roberto Nogueira.


a alma não ocultara a si diante do opaco espelho das opiniões
o caráter delineara mera sombra no empoeirado espelho
pálida vida velada de luares invernais sobre ruínas que prometiam sonhos
alicerces de nuvens
vidros partidos de janelas que não vêem o branco dos olhos dos dias
parindo da dilacerada visão cores onde apenas bruxuleiam fantasmas
janela aberta ao deserto nos olhos do abismo.

Wilson Roberto Nogueira


A cada dia, caía-lhe sobre os ombros pesados casacos de agonia
tão pesados, que os passos das horas eram grilhões a apunhalar
as veias da vontade de ser livre enfim .
Assim provava o sabor de saber-se vivo.

Wilson Roberto Nogueira



Alguns compenetrados, outros vagando pelos quadrantes da sala a consumir o tempo em lenta lenta agonia ou olvidando por completo os insondáveis caminhos das matérias .Outras personas a paisagem do teatro interpretando?Interpretando saberes e seriedades; outras profissionais catando códigos na busca por peneirar pedras preciosas de algum edital.Mais adiante zanzam a procura do que desconhecem, apenas flanando nas veias expostas de cidades imaginárias .Naquele canto alí , a natureza morta dos gestuais de sapiência dos abancados."Oito horas a Biblioteca fechará suas portas . "Os livros ficaram presos e dentro deles leitores fantasmas.Essa catedral não recebe sem tetos e suas correntes de pedras.

Wilson Roberto Nogueira.2009/19/09


tateia o tempo o coração da memória
com espinhos a escrever uma nova estória.

Wilson Roberto Nogueira


Naquele café esfumaçado bebia a si próprio , a cada gole ,enquanto o tempo passava .Impreciso caminhar."Que horas 'serão' , será noite ou dia ?Não importava mais, sua juventude se fechara e só restara uma lâmina de luz cortando os pés da porta.

Chegou em sua sórdida morada embora não tenha lembrança de haver caminhado até lá .Pôs-se a descamar-se de suas roupas e a medida que se aliviava delas , não encontrava sinal de si.A sombra que o perseguia , perseguia o sobretudo que ora o cobre de seu derradeiro inverno .

Agora entre o pó e as teias de seu quarto tornara-se o vulto translúcido de seu trincado espelho.

Wilson Roberto Nogueira


cada frase franze a testa do verbo abrindo sulcos
cicatriz do tempo a germinar rosas entre as pedras.

Wilson Roberto Nogueira


Ler no braço toda uma história - as placas de gordura , as pelancas, as casquinhas do ressecamento; tudo marcado pelas vírgulas das cicatrizes;cada letra com o devido pingo de sarna.Um pergaminho de deterioração, degeneração a espera do ponto Final.

O olhar perdia-se no opaco enredo de u'a estória de desenganos.

Wilson Roberto Nogueira

Comprara livros .Lia ?Eram vidas que o mantinham em pé.De si só vidas dos outros.Pensamentos-velas e idéias âncoras munição para o espírito.Até o jogarem no arquivo morto da repartição.

Wilson Roberto Nogueira


Um pequeno sol escurecendo a visão.
Na escuridão do quarto o olho cego de uma lanterna.
A porta arrombada de uma morada.
Um sórdido quarto de pensão
testemunha a prisão de um insone ladrão
de sonhos.

Inocência ausente desertora precoce
prece silenciosa diante do abismo e seu sorriso.

Porta aberta sangrando histórias que só as sombras sabiam.

Sob o colchão mofado acorda como quem se livra de afogar-se
o morador da pensão olha no olho da lanterna
o cano de uma arma.

Esteja Preso !

Wilson Roberto Nogueira.


É assim mesmo, a foto vai se apagando ou vamos dia a dia passando a borracha, virando a página...Viver é conviver ,fazer vínculos caso contrário é só existir. Se penso já tenho companhia. Embora seja tal um porre de vodka de fundo de quintal. O rato só aproximava-se da luz de suas lembranças para melhor conduzir as letras em suas fracas patas sujas de tinta e mesmo assim conseguia produzir um modesto verso que lhe agasalhava de sombras e sonhos.

Wilson Roberto Nogueira


só o que sobrou do sonho
é essa sombra no teu olhar
o pesadelo trêmulo no teu caminhar
é o vacilar dançarino do demônio risonho
a busca por algo invisível que a razão não alcança
são os passos incertos dessa dança.
letras incertas qual chuva de prateados
gafanhotos
afastam chateados garotos abreviados
de sonhos de proletária vida
a morte renasce em cada sonho que assassina
essa é sua sina.
a sombra no teu olhar
é a alma que desaprendeu a dançar.
tua seda sua sem amar
o mar te convida mas
mas não há mais nada
nada sobrou do sonho
na razão do teu amar.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cumpre o rito
sumário
a soma de uma vida
um grito ordinário
numa cópia rasgada
de Munch.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Cai um pingo de tinta
e a palavra se cobre
de mistério.

Nada tema com o trema
não trema com a reforma
da Língua
Ela é carne viva
e não é só portuguesa
brasileira
afrolusobrasilofona
deixem morrer de fome
os cães de pedra da tradição
tais jazem no chão.

só o sombra sabe
onde desabrolhou
feliz Deisi.
Está deisiando olor alí
aqui agora acola
lelé legal
tri humus do humor.

Wilson Roberto Nogueira


Não lamenta

Não olha para trás

Não para

segue avante
Atrás caminha a Noite
a desenhar as curvas da alma.

A lembrança moribunda
seguir-te-á a serpe até o anoitecer
dos teus olhos.

Wilson Roberto Nogueira
2009


Noventa novenas para a névoa em forma de sombra
sobras de uma vida que dançava na tempestade
sonhando ser água pura fervendo no asfalto
marcas do silêncio no caminhar maldito da memória.
reza a estória que o fantasma sem nome alimentava-se
da fome, da guerra e da peste.
Faminto de fome não passou
da guerra bebeu todo o sangue
a peste sua assinatura nas crianças que não nasceram.
O espectro do esqueleto imortal perseguia a bruxa,
a macróbia camponesa pelos campos radioativos e rios
que suplicavam água para viver.
Voraz silêncio depois da chuva de metal
semeando campas em aldeias- lápides
só o fogo iluminando a lua ausente ao entardecer.

Wilson Roberto Nogueira
2009


deves deixar de ter as entranhas expostas
no açougue

falar em voz baixa para que meu coração
apenas seja ouvido pelas vísceras.

O coração é a luz intensa que dita os passos
da razão
É a luz que encobre as pedras dos ocasos
é a ração
diária de sangue que a vida cobra
daquele gauche que por hora veste
a armadura da razão

Wilson Roberto Nogueira