sábado, julho 31, 2010

Nasci tragado pela vida

desde então venho deixando
cair minhas cinzas
de efêmera trilha
que o tempo transubstanciará
em esquecimento.

Wilson Roberto Nogueira
As cicatrizes são caminhos


onde as perdas se encontram

felizes.

fatos na foto tropeçam

no argumento da face

cicatriz

a verdade escapa

por um triz.

A imagem pede sangue

o riacho seco

sorriso de lamina na face.

A foto retalha a festa do pranto

na lúgubre mortalha do espanto.



Wilson Roberto Nogueira
Atravessa a calçada e, num passo apressado, a preço do tempo ,sufoca no garrote invisível da angústia. Corre e quase tropeça , esvai-se a vontade louca num banho de água gelada e suja, some a consciência e urra no tiro da noite. Silencio. Paz. Mais um morto. Nada. Mais uma bala perdida. de onde ,ninguém sabe e alguém quer saber. A vida segue.Antes ele do que eu!Será?

Wilson Roberto Nogueira
As faces que ela pinta
olham para ela


que desertou de si mesma
alma deserta

na pele de poeta
tapete de mãos rasgadas

calos de dores antigas

Olhem para ela

antes que Eva
em vapor se adorne.



Wilson Roberto Nogueira

Nocturnal hour 1995

Uma só da sua sombra sopra contornos de calamidades em calamares de sonhos .


Seus calores em amores calam em holocausto de tremores todas as ilusões.

Projeção de chama na parede

miragem de fogo

posto que é gelo.



Wilson Roberto Nogueira
A vida dera-lhe tantos socos , que o tapete de pele de sua face mal servia de testemunha à sua história.
As ruínas não passavam de um monturo onde pele e dentesdesertavam da palidez; a própria face fugia de si ,afogava-se nos poços negros de olhos sem espelho.
 O sentimento não mais escorria, escorria apenas a baba bovina no hálito de catacumba . Não mais a provar o néctar na seda úmida de uns lábios de mulher
A carne já não lhe dizia, silenciara a espera dos passos balbuciantes da companheira; deitado e a incaroavel por mais uma noite lhe negara a visita.

Wilson Roberto Nogueira

Festa da Conceição da Praia.1947

sexta-feira, julho 30, 2010

moedas pesam no bolso;

consciência leve
soprada pelo vento.


Wilson Roberto Nogueira
Os seus muros despregavam-se sobre o lago

que debruçava um último olhar
àquela pele jovem do luar.
A lua ainda acreditava no sonho prateado das marés!
Um lago que sufocava o que sabia da poesia das marés?



Wilson Roberto Nogueira
A risada dela rodava no desespero de Ser feliz.


A noite não caía, desabava chumbo grosso
engessava a vontade de sair
Cobria de sorrisos ocultos
o dourado dos dias
uma lembrança agonia
a cada rede a noite vinha
ébria de meias deslembranças
uma noite leitosa que se anuncia
no beco,na viela ou na guria
ou no sorriso dela ao sair do bordel
O céu era um lençol rasgado de um quarto sujo
ali ao lado
no lodo grudado na alma do sorriso de ouro
nas quebradas
a costela partida num adeus .



Wilson Roberto Nogueira

Urubu

pairou quieto sobre a breve vida e bebeu com os olhos de anoitecer

aquela breve chama fenecer
pousou e esperou respeitando o tempo daquela tenra alma se despedir da casca.
Agora sim ,cuidadoso ;chegara o momento de limpar.
Aguarda uma esperança ,que um pouco daquela alma criança,
fique perto do seu coração a rir e leve de si ,peso de sua função.

Wilson Roberto Nogueira

quinta-feira, julho 29, 2010

A paz sonha existir, mas é apenas a gota nankin na pluma de um poeta anônimo

ou o sonho da guerra .



Wilson Roberto Nogueira

Muro de seda

O olhar perscruta a intimidade da fechadura e devassa uma imagem.
Uma miragem de um mirar míope.Percorre o não ser contido na idéia,
jogando luz opaca na silhueta sílfede da mentira.Volta para o quarto e
se masturba com a imagem. Sua esposa retorna para o quarto e a cama,
fica plena de vazio.

Wilson Roberto Nogueira
A jovem mãe teve a vida apostrofada ao dar a luz a quem só queria ficar na escuridão;aquela larvinha preferia o conforto das quentes trevas às frias
e barulhentas claridades.Lalá instintivamente fervilhava em vomitar em alguma
privada pública aquele trocinho ,que afugentaria seu ganha pão.Aquela larva voraz a agasalhou de sangue e a cobriu de um frio gostoso que expulsou suas terríveis dores.
Finalmente apaziguada, dormia na sordidez tranquila ,ao lado de sua cria não nascida.


Na companhia dos corvos só as cinzas choraram
lágrimas secas.
O vento sopra pro vazio sombras de não existências.



Wilson Roberto Nogueira
Postar uma lembrança

carta que jamais alcança
do sonho os recifes
que o passado naufragou;
o mar limpa nossos cadáveres.



Wilson Roberto Nogueira
Sentado aguardava no silêncio.


Caiu um espelho.
Levantou e olhou para si.
Lenço aos olhos procuram lágrimas.
secas covas de negras miradas.

saiu o velho no silêncio.


Wilson Roberto Nogueira
Zacarias Zagaia arremessava pedras quando falava,
até quebrar a vidraça da sua casa.A patroa catou os cacos
e fez um mosaico de sua relação.Zacarias perdeu a casa e caiu
na gandaia.



Wilson Roberto Nogueira

A Infância de Ivã

Cumpre o rito

sumário
a soma de uma vida
um grito ordinário
numa cópia rasgada
de Munch.

Wilson Roberto Nogueira
chuva seca antes de cair

molha de tortura a esperança;
quadro trincado no chão
jarra de poeira e teia sobre a mesa.
criança arranha o chão procurando o que comer
os intestinos a devoram com carinho
devagar o cão caminha e lambe sua última gota de suor seco.
A procissão semeia preces no silêncio estéril.
Enquanto na cama o desespero engendra nova criança.


Wilson Roberto Nogueira

A Nau dos Insensatos

Reverbera o verbo liquida alma da pedra deambulando os caminhos sonhados do lago,
gaguejando borbulhas ,afunda sem dramas nem damas sonhando ,nem dores sentindo ,nem alegrias; pedras sentem o vazio só no sonho das nuvens, pedra disfarce do granizo ,gotejante tecido do vento ,véu do dia em tempestade dorme a revolta do lago.Lá no fundo,lá no fundo no fundo ainda resta uma esperança de pescaria.
A pedra afunda sem perceber,sem querer,sem amar,sem sofrer.Só o Sol por vir sonha Poder fantasma falar ,dar a pedra o calor de sentir.
Sou pedralápide apócrifa num lago deserto.


Wilson Roberto Nogueira

quarta-feira, julho 28, 2010

Como era verde o meu val canta o bardo orvalho


com olhos de nuvem.O vale que é fuligem na noite eterna

nas crateras das minas até as copas das chaminés

espirando as vísceras das eras nas florestas de pedras

e pó

dos pulmões das crianças-flores tísicas germinando nas campas.


Vasto céu nú de estrelas,imenso mar sem ilhas.


Wilson Roberto Nogueira

Mosca flâneur

As moscas dançam, saboreando doces podres; os pombos jogam futebol com migalhas de pão-de-queijo Toca o realejo da memória do aposentado, que chora ao olhar a luz dos olhos da neta sorrirem ,enquanto as moças transam salvando dores de senhores nas quilhas de naúfraga dama da noite à mariposear suicidios de luz e chamas no cachimbo; cérebros viram cinzas arquivos voando em pó na ventania ,o pó voa na ventania e nada resta daquele livro comido pelas traças, só a fumaça ,a fumaça fantasma bruxuleando na dança do efêmero coito com o vento ,respira seu último vício de vida,vida mesmo através das vidraças partidas, de cacos de dores de fragmentos de olhares de uma môsca consumidora de insumos de dores de múltiplos fedores em cada prato de pranto, restos no pûs dos dias, voa vadia a môsca urbana, urfausta cidadã, dançando no tédio da manhã.



Wilson Roberto Nogueira
Zumbem as mensageiras da morte,levando consigo a mortalha do silêncio.


Noite sem sonhos sono eterno.A luz da lua lamacenta a escorrer grudenta

como um relógio de Gaudí.Os números das horas escaparam para o longinquo nada


oceano negro mastigando a lâmina vítrea da opaca vida que deserta na explosão borbulhante de lembranças.

Vida



Zumbem as mensageiras da morte,levando consigo a mortalha do silêncio.




Noite sem sonhos sono eterno.A luz da lua lamacenta a escorrer grudenta



como um relógio de Gaudí.Os números das horas escaparam para o longinquo nada



oceano negro mastigando a lâmina vítrea da opaca Vida .Bóia distante num mar de condenados



sem forças para perseguí-la a nado deixa-se levar



 lavando-se enfim.



Wilson Roberto Nogueira


Araucária-100807

segunda-feira, julho 26, 2010