quarta-feira, dezembro 24, 2008

Olhar Vítreo

Olho dentro do olho de Kalimisos
e não encontro mais o brilho da chama.
Olho e vejo no olho de Kalimisos
a imansidão negra do precipício.

Onde estará aquela criança que sorria
o sorriso da alma no olhar?
Que nadava nas águas de um amor pura chama?

Águas secaram chamas se apagaram.
Sal e fumaça, um eco de um corpo
sem vísceras, sem viço, sem vida.

Estará viva na vida que a violentou?

Restos rasgados de um olhar de penumbra
num cântico de mortalha,
espírito partido do olhar estilhaçado,
cacos de vida.

Amor para quê, qual a razão?

Não existe razão ou significado
Dor compartilhada,
comer da mesma solidão,
lamber as cicatrizes sem nojo.
Ver no outro olhar uma lagoa
refletindo o vidro opaco de sua existência.

Nada, um imenso nada,
vidro na água invisível de si.

Olho dentro do precipício e não a vejo.

Não adianta tatear na escuridão de seu olhar
qualquer sinal de Kalimisos.

Wilson R. Nogueira

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